sexta-feira, 30 de março de 2012

...poemas apolíticos... de wisława szymborska


Nada duas vezes

Duas vezes nada acontece
nem acontecerá. E assim sendo,
nascemos sem prática
e sem rotina vamos morrendo.

Nesta escola que é o mundo,
mesmo os piores
nunca repetirão
nenhum inverno, nenhum verão.

Os dias não podem ser repetidos,
não há duas noites iguais,
não há beijos parecidos,
não se troca o mesmo olhar.

Ontem, o teu nome
em voz alta pronunciado
foi como se uma rosa
me tivessem atirado.

Hoje, ao teu lado,
voltei a cara para a parede.
Rosa? O que é uma rosa?
Será flor? Talvez rocha?

Porque tu, ó má hora,
me trazes a vã tristeza?
Se és, tens de passar.
Passarás - e daí a tua beleza.

Abraçados, enlevados,
tentaremos vencer a mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas de água.

quarta-feira, 28 de março de 2012

...ihihih...ihihih...ihihih...

...ensemble... by ana monteiro...

passei por lá hojeas formas de “ bricolage expedita”
a prerrogativa da minha felicidade num campo de batalha,
o trágico estádio bárbaro da formulação do meu juízo estético.
o texto de apresentação prometia
objectos do quotidiano em formas, funções, tamanhos e cores
diferentes do que estamos habituados no quotidiano,
mas...
a mesa virada do avesso,
na posição correcta das “vãs pretensões”
não chegou para intoxicar os meus sentidos
uma sala apenas com paredes, paredes muito brancas...
fica então o aviso!
recuar o passo até ao apogeu daquelas décadas em que nos convidavam
a não recear pelas novas formas de arte…
a não recear o debate em torno do que poderia entender por arte…
a não recear o debate em torno do debate animado sobre a valência estética…
agora já me parece inconveniente…
não sei se contaminada pelo meu estádio estético ainda bárbaro…
teimava em mim o desgosto de não conseguir acreditar que aquelas coisas tinham significado.
arrefeci a falta do ânimo, fiz parte do caminho de regresso a pé…
o êxodo foi abençoado,
usei a chuva como pretexto,
não para cortar o cabelo,
mas,
para me sentar numa cadeira da barbearia…
naquele cenário instalou-se o deleite e a saciedade nos meus sentidos,
o eloquente ataque tesoura, sempre em riste e em coragem, incapaz de falhar na intenção…
a vigilância agitada da tesoura estava a dar cabo de todas as minhas fraquezas…
a autoritária exposição da tesoura estava a implantar o estremecer em todos os meus sentidos…
mesmo na cadeira da “sala de espera” não consegui esquivar-me no pretexto da conversa…
gostava de ficar sentada numa barbearia, dessas…
com aquelas cadeiras…
inútil será aqui descrevê-las...
com aquelas navalhas…
inútil será aqui descrevê-las…
com aqueles espelhos…
inútil será aqui descrevê-los…
com aquela luz…
inútil será aqui descrevê-la…
com aquelas batas brancas…
inútil será descrever a forma como incorporam a luz…
mas... era impossível... a insurreição contra a chuva que já não caía...
era impossível…
voltei à rua,
um expedito batom aconchegado junto à rude árvore…
apenas a árvore e o expedito batom…
já sem a chuva
de que o batom se poderia estar a proteger…
talvez na recolha do mel…

...la resilience...

...pornopopeia...