quinta-feira, 24 de novembro de 2011

...paralaxe...

...à semelhança da Pusinko a aliança no dedo não foi com toda a certeza o que me fez não conseguir desviar o olhar...

... que me desculpem os carpinteira mas alguém aqui tem de impor alguma paridade em relação ao mafia da cova...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

...a minha caderneta... tenho agora a sensação que era bom aquele tempo...

...em cima a avó maria de são josé, eu, o tio zé
em baixo o manel, o nini, a dulce e o primo rui ao colo...

...metade persiana... metade muralha...

"As escadarias são sempre um hipnótico aluvião para as crianças - as crianças são sempre sôfregas, indiferentes à secreta vida desta mulher, esquecida do frescor dessa agora indiferente escadaria. Mulher indiferente aos raios de sol coados pela persiana quase fechada. Podia introduzir o pormenor: nos quartos deste hospital as persianas nunca estão totalmente cerradas, mas cerram-se com a idade.
Podia introduzir o pormenor de alguém dizer na visita das cinco: “não há uma racionalidade simbólica entre os acontecimentos”, alguém que travava as lágrimas pelo jorrar das palavras, alguém que algemava as lágrimas no agónico aluvião das palavras.
Ao meu lado, em cima daquela mesa de frio metal… o vaso, exílio de todas as flores, isoladas do mau tempo, indiferentes à secreta vida desta mulher, agora de palidez frondosa, nunca desejou embarcar, cerrou a persiana com a idade.
Os segredos desta mulher: metade persiana, metade muralha de pedra… mitigou o frescor das escadas… enalteceu a proximidade do meu destino, ambos talha de faiança cilíndrica, isolados do mau tempo, no aluvião da agonia das gotas que se perdem por mim abaixo… todos os exílios são feitos de açoteias de cacos…
Ao meu lado, em cima daquela mesa de frio metal… o vaso, o dicionário das poeiras estrelares, pormenor que torna esse quarto história inverosímil, apesar de ser a única coisa verdadeira.
Os segredos desta mulher: conheceu Gibraltar, Marrocos, a Suíça, cinco dias e quatro noites onde procurou decantar histórias.
O irmão também queria a aquela casa onde se sobe uma escadaria de madeira, aquela com a porta de alumínio, branca. Não quis ceder, foi lá criada… e depois ainda tem aquela escadaria, em tempos gigante… sempre uma pantagruélica sedução na infância… oliveiras, em tempos gigantes, num quintal perto da feira, naquela ladeira onde fizera uma corrida até à capela de Santo Isidro…
Na estrada do fundão, lugar neutro, aquela paralela onde havia antes uma subida muito grande, hipnótico aluvião dos adultos... desfeita em cacos…
Os segredos desta mulher… os lábios continuam sôfregos… recolhem de mim as gotas perdidas, o forçado exílio… enaltece a proximidade do meu destino, a insonorização do quarto aguça os alvos sons… lá fora a dança dos sete cavalos… cá dentro, ainda, as algemas forçadas dos cacos…"
ana monteiro

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

...os medidores do trigo...

entranha-se-me a lenha da tua impune voz
                                  sem perdão
ensaio o arrepio da tua augusta noite
                                  sem fúria
entranha-se o gemido do teu plagente soalho
                                  sem malogro
ensaio o tom brusco da tua velha claridade
                                 sem maldição


entranha-se-me a agitação da tua nobre doçura
                                  sem crença
ensaio o excesso da tua ousada fraqueza
                                 sem glória
entranha-se-me o orvalho do teu caloroso desânimo 
                                sem tepidez
ensaio a rutura dos teus pesados soluços
                               sem verdade

                                             ana monteiro

...george steiner e antónio lobo antunes ...



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